segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Quem sabe um dia…..



Tens na voz o sabor ao vinho das encostas que embalam o rio, o verde do teu olhar no meu é como a folha da parreira que dá cor á tela que representamos. Nesse momento em que fomos um, tive a certeza da criança que um dia … da mulher que me fazes e sempre o rio, tão perto dos dois, tão perto de mim a deixar a incerteza da profundidade dessas águas, na incerteza do momento em que em ti me afundo – se ao menos eu soubesse (se ao menos soubesses). Os dias em que as bocas e os corpos se tocaram tão iguais a nós, tão parecidos com eles, os que tens em ti e de ti são parte, como um braço daquele rio a que sabes… daquele a que eu transbordo … entras em mim como a força dos ventos que transportam a chuva, o teu amor em mim, em nós…. as mãos que tocam o rosto, deslizam como o cabelo por entre as lágrimas que o corpo nos pede, levas-me a fome de ti e o calor, o calor de nós de vazante na margem….
Esse rio selvagem que tocas tão fundo, sou eu, assim tão tua. Em mim fica a verdade, a verdade do que fomos, de nós que seguimos o curso da água, que todos os dias acorda no sereno da casa que és, a janela que abriste, a janela que não fecho e o rio sempre tão junto a nós. Não sabia que podias ser casa, percurso desnorteado sem destino, acabas no para sempre do caminho que não deixas de ti mas que insistes em percorrer. Corre “ água louca em cavalgada, não vás devagar na loucura de chegar” , iluminas-me as madrugadas, navegas-me no escuro e sabes encontrar-me…..

terça-feira, 16 de setembro de 2008

sem ti....

Nunca pensei ser tão longa a distância entre os dois. Quando o teu olhar me transportava pela luz que não sabia existir, julguei ter-te aqui ao lado – mesmo assim e apesar de tão longe alcanço-te, as florinhas que me enfeitam o cabelo num dia de primavera acabada de chegar, dizem-me que, como as andorinhas regressas, tu como as marés, revoltas, inconstantes e regressas – não me sais do corpo, esventras-me o coração com o som dos dedos que ficaram e não posso arrancar de mim…. Engelhas-me a razão, como o lençol depois do sono que não conseguimos… a voz que vem da terra enviada pela chuva, pergunta se algum dia foste, como posso negar a gaivota que todos os dias me aterra e me sussurra a melodia que juntos tocamos? Como posso negar a manhã cinzenta que não deixaste ser? Contigo veio a noite e a escuridão que ficou, todos os sentidos me magoam quando vejo o teu nome, tu tão aqui e eu tão sem ti… quem me dera encontrar-te mais uma vez escondido junto ao sítio onde tive a certeza que fomos, quem me dera nunca ter deixado a cortina que nos separava voltar a cair… quem me dera ter-te, não a ti porque na verdade já te tenho, quero a voz, o respirar que me adormece, a pele que me penteia a saudade e me arrepia a memória…. Quem me dera ter-te aqui….

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

em mim.....

Lembro o segundo em que junto à porta me abraçaste, o beijo que me deste e que não senti foi a fugir.... nunca mais te vi.... levaste contigo o meu chão, o que tinha de melhor - a esperança - julgava que o medo pertencia aos fracos, que tontinha.... o medo pertence-nos, nasce e cresce dentro de nós todos os dias - " entre a dor e o nada prefiro a dor " ( por medo do nada ) , estamos habituados a sofrer, é tão difícil ser feliz.... não me parece disparatado dizer que o amor e a morte são em tudo iguais, não podemos viver sem eles, o mistério da morte e do amor comandam os nossos dias, sabemos que existem e aguardamos o momento de os encontrar. Nos dias que se seguiam julguei que a qualquer instante encontrava a morte, fiquei nada sem ti fiquei medo e dor.... o sorriso.... o corpo, como as frutas num inverno rigoroso, queimaram com a geada da tua partida, era tão feliz, juro que não tinha medo.... hoje sei que o que tinha era nada, o amor não foge como um beijo, um amigo costuma dizer-me, " o cavalo branco só passa uma vez " , aprendi o medo, a verdade da esperança e posso dizer-te - o medo mora em mim...

O Meu Primeiro Beijo.....

Revejo nesta noite, a paisagem solarenga de infância, oiço a água do rio que corre e toca a ponta dos meus dedos, a agua é fria mas aquece-me a alma.... o vento dança entre a folhagem antiga e espalha um aroma a terra, a verdade , um cheiro que só ali se pode sentir ( quantas vezes ali brinquei ), o calor também é diferente, aquece tanto que me refresca, inunda-me a memória, envolve-me o corpo como as tuas mãos em mim que vão deixando atalhos para o desconhecido, a boca tão perto da minha, adivinha o sabor da amora, que juntos provamos debaixo das estrelas nesta noite solarenga.... as águas límpidas que espelham a claridade da lua turvam-me a razão, conduzes-me como um barco, daqueles grandes que nem sei o nome, és o marinheiro de mim, eu tão igual ao rio selvagem que acorda e adormece sozinho, juntos ( eu e o rio ) sabemos o lugar onde ficam essas imagens, um dia voltamos lá..... ao meu primeiro beijo....

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Descobrir o Ser Pinante!!!! ( ou não )


Para meu espanto, descobri que entre nós “ pululam “ esses seres que, segundo denominação da comunidade masculina ( em geral ) , se designam de seres Pinantes. Os seres Pinantes são criaturas difíceis de identificar de entre o “ povo normal “, em tudo se assemelham ao Homem. Seria muito mais fácil se usassem umas antenas ( fofinhas ) e se fossem verdes ( um bocado pindérico ) bem, dizia eu que os criaturos, são em muito parecidos com o normal, trabalham, dormem, comem e basicamente “ pinam “... sim “ pinam “ é essa a sua principal característica. Pinar é o equivalente ao acto de acasalar mas sem fins reprodutivos. Normalmente a malta faz o amor ( também o equivalente a acasalar sem fins reprodutivos, ou não ) e esforça-se ( ou não ) para manter o parceiro sexual, já um ser pinante que se preze, faz o amor e parte em busca de outra” pinadela “ .
Este ser, vive em comunhão com a natureza, estes belos mamíferos podem assumir a forma masculina ou feminina, o género sexual não é eliminatório no que diz respeito ao concurso para vaga de ser pinante, o que interessa mesmo é pinar e não trair o primeiro mandamento desta comunidade “ Só pinarás uma vez com certo e determinado parceiro “ , de resto tudo é permitido.
Segundo consta, podemos encontrar dois tipos de Ser Pinante: O Elegante e o Palerma , que por sua vez ainda se sub- dividem. O elegante é culto,charmoso tem um bom emprego e até pensa que tem princípios, por exemplo : não frequenta sítios onde se paga a “ pinadela “, têm paciência , um Visa e levam a parceira a jantar, conversam sobre comida, explicam que os pescadores quando apanham o Esturjão fêmea, se certificam que este tem uma morte pacifica, caso contrário, o bicho segrega uma substancia amarga que estraga os ovos ( as coisas que uma pessoa tem de ouvir ) ou seja, usam a técnica da sedução com muita sabedoria á mistura , já o Palerma, não diz nada que se aproveite, pensa que a “ Divina Comédia “ - a viagem de Dante Alighieri ao Inferno – é o novo filme Regresso ao Futuro versão terror e prefere pagar pela prestação de serviços ( mesmo sem recibo verde ), ou então optam pela técnica do Peru, conhecem uma labrega num bar enfrascam-na e depois então - A Pinadela.
Ainda dentro da espécie Elegante temos o sub- tipo Elegante Extremamente Enervante – EEE- ( novo rico ou cromo ) , que leva a presa a tomar Kopi Luwak ( o café mais caro do mundo, plantado na aldeia de Sumatra onde vivem nas árvores uns gatos selvagens que ingerem os grãos de café , defecam o grão e só depois é comercializado ) , quando o EEE descobre a origem do café temos a cena do vómito pelo nariz e lá se vai o charme ( ou o regresso ás origens ), este tipo de ser pinante faz ainda aquele comentário - “ sempre pensei que a maionese vinha de uma árvore “ .... ( sem comentários ) ...
Surge então o Palerma Xico Esperto – PXE – tem a mania que é pintas, come até cair para o lado, arrota e faz um biquinho por onde sai o ar de forma controlada com aquele bafo indescritível e pensa que é cliché em vez de chic, tenta conversar sobre o transcendente e pensa que a Teoria do Big Bang foi um atentado terrorista em Londres e que a Teoria do Universo Aleatório é uma estratégia para se jogar Monopólio, é amoroso e fala até sobre a velhice ( dando esperanças acerca de uma relação para durar ) , diz " amor um homem na velhice não se pode esquecer de três coisas , de ir á casa de banho, nunca desperdiçar uma erecção e nunca confiar num peido " ( perdoem-me a expressão ) ....
A nossa vida é uma cruz....

Enfim, espero ter contribuído com esta dissertação para uma maior facilidade na identificação desse “ granda “ mamífero que nos assola.... o Ser Pinante....

( continua )

sábado, 23 de agosto de 2008

a morte do artista!

Nunca fui fã desta expressão ( até porque adoro artistas ), mas agora sei que na realidade a sucessão de acontecimentos cómicos que tem sido essa coisa de vida amorosa e a forma de a descrever é de forma exacta A MORTE DO ARTISTA!
Nunca me tinha calhado, interpretamos os factos de milhentas maneiras mas neste momento, em que me sinto atropelada por uma auto-motora de um comboio regional, sim de um regional porque passa mais devagarinho e por isso mesmo mói mais, pisa lentamente ( a de um alfa pendular não me serve, passa tão depressa que nem se dá por ela, imagine-se a do TGV ), estava eu a dizer que ainda não tinha chegado a minha vez e agora que me deparo com a morte do artista interpreto o circo dos amores ( ou do amor depois do amor ) assim...... como o fim da linha ( outra vez a auto-motora ), calma que não penso suicidar-me, isso tenho eu feito repetidamente e com mestria, nos últimos tempos sinto-me o Bastinhas do suicídio, até parece que me vejo, montada num belo lusitano a cravar dois ferros no minúsculo espacinho que ainda existe no meu coração..... senhora que é senhora guarda tudo na carteira ( onde tudo se encontra ), pois na minha transporto o desfibrilhador que uso com alguma regularidade, é no mínimo deprimente ter que andar nesta vida de manobras de reanimação .
Não me digam que a malta com a idade aprende a fintar as asneiras ( já não digo a evita-las ) , ao contrário, quando não se tem nada a perder ( tipo.... já não há desfibrilhador que me salve ) a malta atira-se de cabeça, deixa de existir conexão intra- hemisférica e la vai a gente ( ainda por cima contentes ) cravar mais dois ferros onde deixou de haver espaço e perdemos mais uma nesguinha daquilo que já não se tem ganhando mais um ponto para a melhor marca pessoal no que diz respeito ao suicídio ( isto sem falar no coração que entretanto se assemelha a um porquinho da Índia morto na auto - estrada ) . Ficamos num estado de estupidez tão grande que pensamos não sobreviver, falta o apetite, o sono não vem, sugamos de dentro de nós todas as lágrimas ( qual aspirador industrial ) e sentimos que vamos morrer, um verdadeiro ataque de pânico ( mas mais soft ) , é a MORTE do ARTISTA , isto até nos prepararmos para a próxima tirada de inteligência e bom senso ( tudo o que representa a paixão ) que acaba sempre em atropelamento, vai daí, sai tourada, desfibrilhador e o bicho morto na auto - estrada.....

Resta-nos somente ( e já não é pouco ) esperar que o " porquinho da Índia " arrebite, que não se acabem os ferros curtos porque me parece que os atropelamentos vão continuar.... ninguém merece..........

foi amor........

Foi amor e não soubeste
a jura que não fizeste
num momento inacabado
os teus dedos sobre o braço
o meu corpo o teu regaço
foi amor alucinado

no momento em que deixaste
o meu fado e nao voltaste
fiquei nua do que sou
ouvi o coração rasgar
com as cordas sem tocar
a promessa que ficou

nos lençois dorme a verdade
só ela sabe a saudade
da guitarra que abracei
mesmo que sejas assim
um punhal tão fundo em mim
meu amor o que eu esperei

até eu não ser se não
passos de cinza que vão
onde ninguem os conhece
meu amor dá-me os teus dedos
que tranportam os segredos
deste sol que me anoitece